
Quando as mulheres oprimem as mulheres
«Era Páscoa. Estávamos reunidos na sala de jantar naquele dia. Eis que um comentário me atinge os ouvidos: eles não poderão mais brincar com as mulheres porque serão presos!»
Embora a expressão já fosse absurda para as mulheres, o que tornou aquele momento ad nauseam foi o tom da voz que denunciava a autoria: uma outra mulher.
No mesmo instante, pensei: o que se passava na cabeça de uma mulher para atacar a sua própria liberdade? Por alguns dias, lembrei-me de algumas mulheres que auxiliaram na opressão de outras, ou daquelas que se omitiram nas lutas pela reconsideração humana da mulher.
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Um machismo estrutural
O comentário inicial chegou até mim após uma breve discussão sobre o Projeto de Lei 896/2023, que tipifica a misoginia como crime. A Câmara dos Deputados continua analisando o PL, sem data prevista para votação, sob a alegação de que a falta de assertividade na redação desta lei poderia levar a interpretações equivocadas em alguns casos e à prisão de pessoas inocentes. Em outras palavras, em detrimento da segurança das mulheres, visou-se garantir a segurança de “possíveis” homens inocentes.
Essa leitura se sustenta no fato de que 436 deputados presentes no Congresso são homens, e a aprovação de qualquer lei passa pelo critério subjetivo de suas consciências, formadas, em grande medida, por uma cultura historicamente masculina e machista, que tende a excluir a realidade das mulheres. Isso significa que os homens estão inclinados a se proteger entre si, em razão de uma tradição cultural associada à ideia de masculinidade, ao mesmo tempo que se mostram menos sensíveis a realidades opostas, como a das mulheres. Ocorre que, como a maioria dos altos cargos ainda pertencem aos homens, persiste o privilégio da proteção desta cultura masculina dominante.
Este retrato não é exclusivo da legislação, nem do Brasil. O machismo estrutural está presente na construção do conhecimento, da perspectiva, do saber e da alma num tom quase natural e, às vezes, imperceptível ao cotidiano. No ensino básico, nos apresentaram homens como os pensadores do mundo (de Tales de Mileto à Byung-Chul Han); Na presidência, entendemos que os homens têm mais “talento” para governar, já que dos 43 presidentes, apenas uma foi mulher e não teve seu tempo de cargo terminado por completo; Na Igreja Católica, somos levados a crer que a mulher precisa ser feminina, doce e sutil, e que a epistemologia está restrito à institucionalização e a burocratização, cujos homens compõem a maioria; Nas grandes empresas e companhias de comunicação e mídias, temos quase 100% de homens como presidentes e CEOS, evidenciando de quem são as tendências da moda e de consumo.
Não só a disparidade de gênero nessas organizações influencia o machismo estrutural, mas a associação de características gerais das mulheres como inferiores ou como impróprias para um pensamento ou um cargo; Falas que as colocam em posições humilhantes, ou as comparam com características boas associadas ao masculino, do tipo “você trabalha como um homem,”; Ou piadas que reafirmam papéis de gênero clássicos ou pretendem envergonhar a mulher, como “ela está de TPM”.
Enfim, os exemplos podem ser infinitos; no entanto, o caso do PL 896/2023 bastaria para evidenciar que a construção simbólica cultural possui uma narrativa masculina e machista dominante.
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Um exemplo fictício
Enquanto procurava responder à minha dúvida sobre um comentário machista vindo de uma mulher, a Netflix lançava a terceira e última temporada da série As Leis de Lídia Poët. Fui imediatamente levada a assistir aos seis novos episódios, retomando os doze anteriores que já havia visto. Também por esta vereda comecei a construir minhas respostas.
A série, que foi escrita pelos italianos Guido Iuculano e Davide Orsini, narra a trajetória de Lídia Poët, a primeira mulher a se formar na faculdade de Direito na Universidade de Turim, em 1881. Apesar de ter obtido autorização para advogar na Itália em 1883, no mesmo ano teve seu registro suspenso sob a justificativa de que o exercício da profissão era exclusivo dos homens.
Essa história, que aconteceu na vida real mesmo estando numa série fictícia, demonstra como ideias com estruturas machistas interferem diretamente na realidade das mulheres: «O tribunal aprova a apelação contra a Senhorita Lídia Poët e declara anulado o seu registro na Ordem dos Advogados da Cidade de Turim. Está claro para o tribunal que a advocacia é um ofício que as mulheres não devem exercer. Na verdade, seria desagradável ver mulheres envolverem-se em discussões que vão além dos limites do que o sexo frágil deve observar. Não precisamos mencionar o risco à credibilidade das sentenças caso as vestes da advogada sejam tão estranhas e bizarras como as que são impostas às mulheres pela moda. Portanto, não devemos encorajar uma mulher a cumprir deveres para os quais ela não tem aptidão devido a sua constituição orgânica, ou que a impeçam de realizar outras tarefas mais adequadas a uma mulher, principalmente em seu ambiente familiar».
Escolhi este trecho propositalmente para mostrar como é a estrutura do pensamento machista de forma simples, no qual o âmago do argumento está baseado na origem biológica da mulher. Isto é, a partir do sexo biológico, ou do aparelho reprodutor da mulher, que homens machistas se acham no direito de determinar profissões e/ou o papéis sociais para mulheres.
Além desta proposição, outro elemento principal no argumento machista é a repetição da ideia em qualquer âmbito da vida. Vemos a repetição agir disfarçadamente nas cenas em que a protagonista da série precisa se adaptar a uma fala, ou se rebaixar profissionalmente, mesmo que tenha os mesmos estudos que seu irmão Enrico Poët, por causa da anulação do seu registro, ou ainda nas milhares de vezes em que ela precisa explicar o motivo da sua presença num tribunal e recebe como resposta, por exemplo «Te digo como um pai: volte para a casa”. São as infinitas repetições que pretendiam vencer Lídia pelo cansaço, tal como ocorre na realidade verídica de tantas mulheres, que fazem o machismo apreciar e consumir a perspectiva e o trabalho da mulher, e ainda assim permanecem a excluindo de realidades na qual homens são dominantes.
Tendo o machismo como âmago de qualquer argumento, qualquer outro tema pode ser discutido à partir de uma visão totalmente distorcida, em que, como diz Teresa Barberis, a cunhada machista da Lídia ficcional «Se Deus realmente te quisesse como advogada, não a teria lhe feito mulher».
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Porque existem mulheres machistas
A partir da temporada final de Leis de Lídia Poët, relembrei de como uma cultura histórica além de perpassar épocas, também perpassa gêneros através da formação e da educação. Isso quer dizer que mulheres educadas nesse modelo de pensamento machista tendem a conservar o padrão cultural que receberam pela educação. Esta espécie de “liberdade de consciência” também faz parte do nosso processo de buscar conhecimento, de encontrar o diferente e de conviver. Por isso, dizer que as mulheres também podem ser machistas com outras mulheres, é uma verdade dolorosa de se afirmar, mas necessária.
Compreender esta situação corresponde ao fato de que o machismo estrutural “garantiu” para algumas mulheres uma sensação de estabilidade: a existência de uma única forma de viver parece ser agradável para as mulheres que se encontram com o estado de vida, ou a profissão, ou a caricatura que lhes são impostas, excluindo todos os outros aspectos da estrutura e todas as outras formas de viver. Tal como acontece nas diversas cenas de Tereza Barberis, esposa de Enrico Poët, que deseja viver no cuidado do lar, mas olha para a sua cunhada Lídia Poët com desprezo.
Esse entendimento me leva a responder a questão inicial: por que mulheres atacam a própria liberdade? Porque as mulheres também podem ser machistas. E a luta contra esse tipo de pensamento é um exercício diário principalmente para o homem, mas também para a mulher.
Tereza Barberis, que na terceira temporada já conhece o trabalho de Lídia e seu esforço para ser reconhecida, passa a defendê-la de comentários que o próprio esposo faz da irmã. Talvez seja a presença de mulheres com o pensamento de combater o machismo que vão tornar menos machistas mulheres que ainda permanecem neste crivo.


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